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Por Gleidson Venga, para o ESPN.com.br

Uma tragédia abalou o mundo do MMA nesta quinta-feira. Antes da pesagem para o Shooto 43, olutador Leandro Souza, conhecido como Feijão, acabou passando mal e morrendo. Ainda sem a autópsia, a grande suspeita é que o corte de peso tenha sido o responsável pela morte. O que levanta mais uma vez os questionamentos em cima desta prática.

No MMA, em comparação com outras lutas, como o jiu-jitsu, os atletas cortam mais peso. São dez, quinze quilos em um mês ou até mesmo em menos tempo. Depois, todo esse peso é recuperado em apenas 24 horas. Uma matéria publicada na revista eletrônica PVT Mag de agosto de 2012 já tratava sobre o tema e traz discussões sobre os riscos da perda de peso.

Reprodução/Facebook

Leandro desmaiou momentos antes da pesagem para o Shooto 43
Feijão desmaiou antes da pesagem para o Shooto 43

Uma prática tão drástica como a desidratação pré-pesagem pode ter efeitos colaterais. Segundo Bruno Brown, nutricionista especializado em nutrição esportiva e suplementação e que trabalha há anos com lutadores no jiu-jitsu, onde a pesagem é feita minutos antes da luta, os efeitos em curto prazo são mais comuns em atletas de alto rendimento.

“Em curto prazo, o principal problema para o lutador pode ser a perda de performance. Não perdendo o peso bem, o ‘gás’ pode acabar rápido, a contração muscular pode ser prejudicada pela falta de sódio. A longo prazo, pode haver uma insuficiência renal. Mas não é possível afirmar que acontecerá com todos os lutadores, depende do organismo, do quanto peso perdem”, ressalta o especialista.

Brown faz um alerta sobre um caso que tem testemunhado. Lutadores de baixa renda, influenciados pelo boom do MMA, desidratam e cortam peso para campeonatos de jiu-jitsu e MMA, em troca de uma premiação baixa. Tudo sem qualquer acompanhamento.

“Sei de casos em que lutadores iniciantes que estão cortando peso para ganhar um dinheiro. Por causa de uma premiação de 100 reais, alguns atletas desidratam de forma errada, param de beber água, entram numa sauna, perdem peso e não recuperam direito. É perigoso porque, além de não recuperar o peso direito e lutar mal, pode sim ter problemas sérios de saúde, porque não tem acompanhamento médico e nutricional”, alerta Bruno.

Como é feita a “mágica”

André Benkei não é conhecido como “Mago da balança” sem motivo. O brasileiro, formado em Educação Física, trabalhou em alguns dos maiores centros de MMA do mundo, como a Finney’s Hit Squad, nos EUA, e com atletas como Gesias Cavalcante, Thiago Pitbull e Gleison Tibau, conhecidos por perderem muito peso para suas lutas. Um dos grandes especialistas no assunto corte de peso (que de mágica não tem nada), Benkei ajudou a destrinchar os mistérios de tão polêmica prática.

“Essa perda de peso está relacionada aos estoques de carboidratos e de água que nosso organismo possui, e eles são facilmente repostos logo depois da pesagem. Temos um processo de desidratação que varia de atleta para atleta, e precisamos de tempo para traçar o perfil metabólico desse lutador, e como ele perderá peso”, explicou Benkei.

O especialista explanou que o trabalho é feito faltando pouco mais de um mês da luta: “Cinco semanas antes da pesagem, aumentamos muito a ingestão de água por parte de lutador. Então o organismo começa, naturalmente, a eliminar o excesso de água, aumenta a diurese. Cortamos também o sódio, que ‘puxa’ água para as células. O organismo fica acostumado a liberar uma grande quantidade de água. É um tratamento de choque mesmo”, esclareceu o professor.

A água ingerida é essencialmente a destilada, pois esta não fica retida no organismo. Benkei pontua ainda que, paralelamente à perda de água, é feita uma dieta rica em proteínas, obtidas preferencialmente no frango, e com restrição de carboidratos, para evitar que o percentual de gordura, que se deve manter abaixo dos 10%, não seja alterado, e o atleta não ganhe peso. Por isso, o lutador tem que lançar mão de outras fontes de energia.

“Usamos, para substituir os carboidratos, algo como o MCT – Medium-Chain Triglycerides (TCM – Triglicerídeos de Cadeia-Média). É uma gordura encontrada, por exemplo, no óleo de côco”, cita André.

Outro especialista em desidratação pré-pesagem, Rafael Alejara, que trabalha hoje com lutadores como Paulo Thiago e Francisco Massaranduba, discorda de Benkei na questão da porcentagem de gordura. Para ele, a quantidade de gordura permitida o organismo de um lutador várias de caso a caso. E cita o exemplo de Cris Cyborg, lutadora do Strikeforce.

“A Cris quase não tem gordura, então temos que catabolizar, ela perde músculo. Esse percentual de gordura dá sim um lastro para o corte de peso, mas pode variar de 10 a 13%. Só não pode estar abaixo dos 5% de gordura, porque fica até perigoso para o atleta perder peso. A gordura é importante também porque é fonte de energia”, salienta Alejara.

“Fisiologia não é matemática. Em fisiologia, 2 + 2 não dá 4 sempre”, completa Rafael.

A famigerada sauna

Uma das primeiras preocupações de um atleta que, por exemplo, viaje para outra cidade para lutar em algum evento, é saber se o hotel possui sauna. E lá onde os atletas entram na fazer final da perda de peso, e a mais sofrida.

“Não gosto de sauna. Esquenta a minha cabeça, acho desagradável. Um sofrimento!”, ratifica Thiago Tavares, em entrevista à ESPN.

Rafael Alejara, porém, garante que é a sauna é a melhor forma para perder os poucos quilos excedentes pouco antes da pesagem. Lembra da roupa de plástico, e indica alguns artifícios para amenizar a angústia do lutador.

“Muitos usam a sauna para desidratar, e a roupa de plástico, que abafa o corpo, aumentando a sudorese. Tem uns macetes, como fazer que o atleta ponha gelo na boca. O gelo derrete, mas ele tem que cuspir. É só pra dar uma enganada no organismo. Pode passar nos pés, na nuca, para dar uma aliviada. Já vi lutadores usando o gelo e recuperando as forças para se manter na sauna por mais tempo. Funciona”, garante Alejara.

O lutador então seca o suor, e não com toalhas, pois estas fazem a água voltar para o corpo. Alguns usam plástico, até cartões de crédito para retirar a água perdida. É feita a pesagem e, se o peso não tiver sido atingido, mais sauna. Em casos mais complicados, o atleta tem que pedalar numa bicicleta ergométrica e vestindo roupa de plástico, dentro da sauna.

Rafael Alejara já presenciou uma forma já conhecida usada como alternativa à sauna. E não gostou do que viu: “Não gosto muito da banheira, vi esse uso nos EUA. Os lutadores entram na banheira com água quente e com álcool. O cheiro fica muito forte no ambiente. Vi atletas passando muito mal, e não recuperando o peso direito depois, prejudicando a performance”, reprovou Alejara.

Reprodução

Aldo é um dos lutadores que costuma sofre muito com a perda de peso
Aldo é um dos lutadores que costuma sofre muito com a perda de peso


O limite dos 10 quilos

Toda a dieta, aliada à ingestão de potássio e magnésio para evitar câimbras, e potencializada pela manutenção dos treinos técnicos, produzem o “milagre” da perda de peso. Porém, segundo Rogério Camões, preparador físico de X-Gym e responsável por controlar o peso de atletas como Anderson Silva e Erick Silva, o limite de desse corte pela desidratação deve girar em torno de dez quilos, para evitar danos à saúde do lutador, e para o próprio sucesso da prática e recuperação do peso nas 24 horas pós-pesagem.

“Abaixo de dez quilos não tem risco, o atleta perde o excesso de água normalmente. Somos feitos de 70% de água, mas o organismo ‘sabe’ usar mecanismos para recompensar a falta de água. É uma brincadeira perigosa, tem que saber fazer”, alerta Camões.

O treinador da X-Gym salienta a importância nos cuidados com a alimentação, que servem como dogmas para qualquer atleta: “Tem que controlar a gordura, comer bem, e certo. O atleta precisa fazer uma dieta adequada para estar com o peso ideal no dia da pesagem. Com mais de 10kg o atleta já está com maior percentagem de gordura, aí já temos outro trabalho, que é tirar esse excesso. Já no limite de 10kg o lutador está bem, está forte. Os lutadores da X-Gym, posso garantir, batem o peso rindo, tranquilo. Tudo graças a essa dedicação”, completou Rogerão.

Rogério argumenta ainda que mais de dez quilos de corte pode realmente ser prejudicial, e é permitido apenas em casos específicos: “Geralmente, os lutadores que perdem mais de dez quilos se arriscam, é uma desidratação muito rápida. Pode causar a disfunção renal. Tem que ter acompanhamento médico para saber o organismo de cada um”, pondera Camões.

Porém, se algum “atleta de fim de semana” pensa em emular os lutadores de MMA e usar o processo para reduzir seu peso, Benkei adianta que não é o adequado.

“Não é perda de gordura, esse percentual não é alterado. Aliás, nem aconselho lutador iniciante a perder peso para uma luta. Pode até perder, no máximo, uns três quilos. Quanto menor for o percentual natural de gordura do atleta, melhor é o processo de desidratação. Então antes de perder o peso temos que cuidar do percentual de gordura. O atleta perde a água da pele e, como tem pouca gordura no corpo, você pode vê-lo ‘rasgado’, definido”, salienta o professor.

Como recuperar tanto peso em um dia?

Alejara atentou para o fato de a reposição da água e sais minerais já começa assim que o atleta desce da balança.

Thiago Arantes / ESPN.com.br

Gleison Tibau fez maratona de pizzas para recuperar peso antes de luta no UFC 148
Gleison Tibau fez ‘maratona de pizza’s para recuperar peso

“A primeira coisa que o atleta toma ao sair da balança é o Pedialyte, ou um outro repositor de eletrólitos, água e calorias. É um soro de absorção rápida, até porque o lutador tem em média 24hs para recuperar. Utilizamos também soro intravenoso, para repor os eletrólitos e a água e, como o organismo está precisando muito desses componentes, eles são absorvidos rápido. Há ainda os carboidratos, quese tornam liberados, as frutas também. Não tem segredo, é a parte fácil”, explicou o treinador.

Em relação à quantidade de peso a ser recuperada, isso também varia de atleta para atleta. Rogério Camões cita dois exemplos famosos para pontuar como essa recuperação pode ser feita.

“O lutador tem o peso que luta e o peso que treina. Nas oito semanas de treinamento antes da luta, o Anderson, por exemplo, varia entre 92kg e 94kg em off (peso normal). Nas quatro semanas antes da pesagem, o Anderson já treina com 90kg. Então começamos o trabalho de perda de peso, para que ele bata 84kg. Assim que ele desce da balança na pesagem oficial, trabalhamos para que ele volte pelo menos aos 90kg. É um peso em que ele está acostumado a treinar, está forte, com gás. Já o Erick bate 77kg e luta com 84, 85kg”.

O perigo dos diuréticos

Antigamente, o uso de diuréticos era algo rotineiro. Porém, esses medicamentos são apontados por todos como os maiores vilões na desidratação pré-pesagem. Atualmente são inclusive proibidos, constituindo doping. Rogério Camões é um dos principais críticos do uso, hoje raro, segundo ele.

“Os diuréticos estão ultrapassados. Acredito que poucos atletas hoje em dia façam isso, porque o risco é muito grande. Pode ser fatal”, afirma Camões, completando: “O diurético tira o excesso de água, o atleta perde líquido de uma forma exagerada, e ao mesmo tempo perde sais minerais. Água, sódio potássio, joga tudo fora de forma descontrolada, diferente da desidratação feita hoje. É um risco grande, porque você precisa de água e sais minerais para suas funções metabólicas”, pontua Rogérão.

Segundo Camões, os poucos atletas que ainda se atrevem a usar diuréticos, o fazem para esconder outro doping. O treinador cita os efeitos colaterais do uso desses medicamentos, e porque eles devem ser tão temidos.

“O diurético meio que ‘mascara’ o anabolizante, mas hoje o diurético também é acusado no antidoping. Os riscos maiores são perda da função renal. O rim precisa de água para funcionar. Se você tira toda a água, seu rim para. Outro pode ser uma parada cardíaca, por falta de potássio. O coração é um músculo, e sem potássio pode ter câimbra, e se o coração tiver câimbra ele para”, alerta Camões.

Rafael Alejara é outro que reprova o uso dos diuréticos: “Ou você morre, ou é pego no doping. Segundo estatísticas, os diuréticos são responsáveis pelo maior número de morte em atletas, como fisiculturistas. Diurético é mais perigoso e mata mais que anabolizante”, garante Alejara.

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